Essa reportagem foi publicada originalmente na extinta revista Atrox, edição de novembro/dezembro de 2013, por Gilberlan Atrox e Juno Brasil (in memoriam). Mais de uma década depois, o tema continua atual e necessário.
A republicação deste material marca o início de uma série especial de reportagens no portal atroxista.com, que também servirá de base para o livro “Lado A e Lado B — Da exploração mineral em Parauapebas”. O objetivo é revisitar análises feitas no passado, confrontar previsões com a realidade atual e refletir sobre o modelo de exploração mineral que moldou a economia e a história da região de Carajás.
TRECHO
"Vendemos minério rico e compramos o pobre, o salto no caminho nos deixa comendo a poeira do tempo e os restos", (Citação de Lúcio Flávio Pinto)
A exemplo do minério de manganês da Serra do Navio (AP), o minério de ferro da Serra dos Carajás também é explorado a toda velocidade. A mineradora Vale tem pressa em entregar nossas montanhas de ferro à Ásia e, para isso, tem montado toda uma megaestrutura, com duplicação da estrada ferroviária e aquisição de máquinas gigantescas, com capacidade para 500 toneladas.
A política governamental da mineração no Brasil somente foi criada em 1940, no governo de Getúlio Vargas, com o engodo de fomentar a industrialização brasileira, que crescia sem controle. Em junho de 1942 foram criadas a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), mas, ao invés de industrializar e verticalizar o nosso minério, a política mineral enfocou vender o produto em seu estado bruto, como é feito até hoje, com pouco valor.
A real política mineral do Brasil é uma dilapidação do nosso patrimônio mineral e iniciou com a exploração das reservas de minério de manganês da Serra do Navio, no estado do Amapá, por parte da Indústria e Comércio de Minérios (Icomi). Este foi o primeiro exemplo e modelo da exploração mineral da Amazônia, com extração e exportação de 50 milhões de toneladas de minério manganês, em menos da metade do tempo previsto.
É evidente que a exploração mineral tem suma importância ao desenvolvimento socioeconômico de qualquer país, mas a exploração do minério de manganês da Serra do Navio é um exemplo de que o modelo desta exploração mineral no Brasil é desrespeitoso e criminoso. Como disse o renomado jornalista Lúcio Flávio Pinto: "Um crime de lesa-pátria, um crime que viola a soberania do país".
Com o fim da exploração mineral na Serra do Navio, em 2002, o resultado foi negativo. As empresas se retiraram do local e deixaram um enorme buraco e a contaminação das águas superficiais e dos lençóis freáticos, por arsênio utilizado na pelotização do minério manganês.
Repetição histórica — A maior reserva mineral do mundo foi descoberta em 1967: uma jazida de 18 bilhões de toneladas de minério de ferro, de alto teor, na Serra dos Carajás, no sudeste paraense, pelo geólogo Breno dos Santos, da Companhia Meridional de Mineração, subsidiária da multinacional norte-americana U.S. Steel.
O Projeto Ferro Carajás teve início no ano de 1985, entrando em operação o primeiro trem de minério da região. A primeira venda do minério de Carajás ocorreu em 1986, quando foram embarcadas 13,5 milhões de toneladas de minério de ferro, com uma previsão de exploração mineral para 400 anos.
Hoje exportamos 100 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, do melhor teor do mundo, que poderia ter sido verticalizado no país, mas 80% vai in natura para a Ásia, sendo 60% para a China, em ritmo acelerado, repetindo o exemplo do manganês da Serra do Navio.
A estimativa é de que, a partir de 2016, sejam exportados 240 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, causando com isso uma redução considerável na vida útil da mina de ferro de Carajás, para menos de 50 anos de exploração.
"Vendemos minério rico e compramos o pobre, o salto no caminho nos deixa comendo a poeira do tempo e os restos". Mais uma vez concordo com Lúcio Flávio, quando afirma que estamos vendendo a soberania do país em troca de commodities a preços altos, repetindo o crime do manganês do Amapá, vendido aos Estados Unidos, que até hoje têm minério de manganês estocado, e agora estamos abastecendo o estoque chinês.
A nossa mina ainda não acabou, mas já sentimos que, além do buraco, as empresas que vão embora deixam também os calotes e o desemprego. Com tudo isso, ainda há pessoas que não querem enxergar a realidade e acreditam que a Vale é uma mãe: pode ser para a Ásia, mas não para o Brasil.
Os municípios de influência da Serra dos Carajás, como Parauapebas, Canaã dos Carajás, Curionópolis, Eldorado do Carajás, Marabá e outros, que o digam, com seus bolsões de miséria e sem qualidade de vida.


