Energia nuclear aparece em apenas três planos de governo analisados; propostas vão de reatores modulares à dissuasão estratégica

 Levantamento mostra baixa centralidade do tema na disputa presidencial

 

Energia nuclear aparece em apenas três planos de governo analisados; propostas vão de reatores modulares à dissuasão estratégica


A energia nuclear ocupa um espaço marginal nos programas de governo examinados para a corrida presidencial. De acordo com a revisão dos 12 planos realizada nesta apuração, apenas três candidatos fazem referência direta ao tema: Lula, Renan Santos e Ronaldo Caiado. Em nove dos 12 documentos não foram identificadas menções à energia nuclear ou a seus principais componentes — como urânio, reatores, Angra ou ciclo do combustível. O plano de Pablo Marçal foi tratado separadamente porque não foi localizado no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que impede incluí-lo na comparação documental dos 12 programas.

 

O resultado revela que a questão nuclear, embora esteja ligada a debates sobre segurança energética, transição climática, autonomia tecnológica e defesa, ainda não se transformou em uma agenda programática comum entre os candidatos. Quando aparece, o tema assume sentidos bastante diferentes: no plano de Lula, predomina a dimensão civil, industrial e tecnológica; no de Renan Santos, a nuclearização é apresentada como instrumento de soberania e dissuasão; no de Caiado, a referência é breve e integrada a uma política energética ampla, sem metas nucleares específicas.

 

 Três planos, três interpretações

No plano de Lula, a energia nuclear é vinculada ao projeto de neoindustrialização. O documento cita os “reatores nucleares modulares” entre as cadeias tecnológicas que poderiam agregar valor à economia brasileira, ao lado de baterias, armazenamento, hidrogênio de baixa emissão, petroquímica verde e bioprodutos. A proposta, portanto, não é apresentada como substituição das fontes renováveis, mas como parte de uma matriz tecnológica diversificada e de uma transição energética de baixa emissão.

 

O texto também trata a competência nuclear brasileira como uma política de Estado, destacando seu uso exclusivamente pacífico e suas aplicações em energia, saúde, pesquisa, indústria e segurança radiológica. Lula propõe ainda avançar na autonomia do ciclo do combustível nuclear e utilizar de forma responsável as reservas nacionais de urânio, subordinando essas medidas à viabilidade técnica, econômica, ambiental e social. Embora defenda o fortalecimento do setor, o plano não estabelece um cronograma de novas usinas nem uma meta explícita de expansão da geração nuclear.

 

A formulação de Renan Santos é mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais geopolítica. Em seu plano, a ausência de domínio completo do ciclo nuclear — especialmente nas etapas de conversão industrial e reprocessamento — é apresentada como uma vulnerabilidade brasileira. A proposta denominada “nuclearização brasileira” busca alcançar a autonomia completa do ciclo do combustível nuclear, incluindo a capacidade de reprocessamento.

 

Nesse caso, a energia nuclear não é descrita apenas como uma alternativa para a matriz elétrica ou como uma cadeia industrial. O documento afirma que o domínio nuclear deveria ser convertido em um ativo estratégico de dissuasão e em uma garantia da soberania nacional, relacionando-o ao fortalecimento da indústria de defesa e à capacidade de projeção regional do Brasil. É a posição mais explícita entre os três planos ao associar a política nuclear à defesa e ao poder estratégico do Estado.

 

Já o plano de Ronaldo Caiado faz uma referência mais econômica e regulatória. Ao apresentar sua estratégia para o setor energético, o documento inclui a fonte nuclear entre os elementos de uma matriz competitiva, segura e limpa. A abordagem propõe avaliar cada fonte segundo critérios como custo, segurança do abastecimento, localização, emissões e contribuição para o sistema elétrico.

 

A diferença está no grau de detalhamento. O plano de Caiado não apresenta propostas específicas para urânio, Angra 3, fusão nuclear, reprocessamento ou autonomia do ciclo do combustível. A energia nuclear aparece como uma possibilidade dentro de uma política energética que prioriza também renováveis, biocombustíveis, gás, petróleo, transmissão, armazenamento e eficiência. Assim, a menção funciona mais como reconhecimento de uma fonte potencial da matriz do que como um programa nuclear estruturado.

 

 O que a ausência de menções indica

A ausência do tema na maioria dos planos não significa necessariamente oposição à energia nuclear. Em muitos programas, a política energética é organizada em torno de fontes renováveis, biocombustíveis, hidrogênio, gás, petróleo, transmissão e armazenamento, sem que isso implique uma decisão formal de abandonar a geração nuclear. Contudo, do ponto de vista programático, a falta de menção deixa indefinidas questões centrais: o futuro de Angra 3, a expansão ou não da geração nuclear, o aproveitamento das reservas de urânio, o papel da indústria nacional e a posição do país diante de novas tecnologias, como pequenos reatores modulares.

 

Essa lacuna também dificulta a comparação entre os candidatos. Um plano que defende a nuclearização como instrumento de dissuasão não está tratando do mesmo assunto que outro que menciona reatores modulares para fins industriais, assim como uma referência genérica à fonte nuclear não equivale a uma política pública com metas, orçamento, cronograma e critérios de segurança. A simples contagem de menções, portanto, é um ponto de partida, mas não mede sozinha a importância atribuída ao setor.

 

 Uma agenda dividida entre energia, indústria e defesa

A análise dos três documentos mostra que a energia nuclear aparece em três camadas distintas. A primeira é a camada energética e industrial, representada pela proposta de reatores modulares e pela busca de cadeias tecnológicas de maior valor agregado. A segunda é a camada civil e institucional, que envolve pesquisa, saúde, segurança radiológica, combustível e uso pacífico. A terceira é a camada estratégica e militar, que associa o domínio do ciclo nuclear à dissuasão e à soberania nacional.

 

A principal conclusão é que não existe, entre os planos analisados, uma visão única sobre o papel do Brasil no setor nuclear. Lula enfatiza a preservação da competência nuclear para usos pacíficos e sua conexão com a neoindustrialização; Renan Santos propõe uma transformação do domínio nuclear em capacidade estratégica de dissuasão; e Caiado faz uma menção aberta, sem detalhamento operacional. Nos outros nove planos revisados, o tema não aparece de forma identificável, enquanto o caso de Pablo Marçal permanece sem avaliação documental por não ter sido localizada sua proposta no site do TSE.

 

Mais do que uma divergência técnica, essa diferença evidencia escolhas distintas sobre o futuro do país. Para uns, o nuclear é uma tecnologia civil de baixa emissão e uma oportunidade industrial; para outros, é sobretudo uma questão de soberania e defesa; e, para a maioria dos programas, permanece fora do centro da agenda eleitoral. O debate ainda está longe de responder quanto o Brasil pretende investir, quais riscos aceita administrar e como pretende conciliar segurança, custo, proteção ambiental, não proliferação e autonomia tecnológica.

 


 Referências

[1]: Plano de governo de Lula — PDF anexado, seção sobre energia e transição energética, especialmente os trechos das páginas impressas 63–68.

[2]: Plano de Governo Missão 2026 — Renan Santos, tema de infraestrutura e energia, p. 23, e proposta de nuclearização brasileira, p. 46.

[3]: Plano de Governo 2027–2030 — Ronaldo Caiado e Kassab, Tema 12 — Energia, p. 34.

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