Depois de anos buscando água no rio e convivendo com água de baixa qualidade, moradores de São João do Araguaia passaram a ter abastecimento tratado dentro de casa
Na Vila Apinajés, no município de São João do Araguaia, no sudeste do Pará, uma torneira aberta passou a representar uma mudança que não cabe apenas dentro de um copo.
A água chegou às casas. E, com ela, vieram de volta pequenas coisas que, por muito tempo, pareciam impossíveis.
Como vestir uma roupa branca.
Durante anos, os moradores precisaram conviver com uma água que deixava os tecidos claros alaranjados. Maria de Luci aprendeu a evitar o branco. Era mais fácil escolher outra cor do que tentar tirar as marcas deixadas pela água.
“Branca, nunca”, lembra.
Aquela não era apenas a água usada para lavar roupa. Era também a água que entrava nas casas para cozinhar e beber.
A professora Maria do Espírito Santo guarda na memória os anos em que enfrentou uma úlcera e precisou passar por consultas e tratamentos. Foram três anos até conseguir se recuperar.
“Pra honra e glória do Senhor, estou curada”, conta.
Antes da água encanada, havia ainda o caminho até o rio.
Era para lá que muitas mulheres levavam as roupas da família. Maria do Espírito Santo fez esse percurso tantas vezes que perdeu a conta. Ia com a trouxa sobre a cabeça e, em algumas ocasiões, com um filho pequeno no colo.
Chegava à margem, se agachava e começava a lavar.
Depois de horas debaixo do sol, vinha a parte mais pesada: voltar para casa carregando as roupas molhadas.
“Quantas vezes eu não saí daqui assim”, recorda.
A história de Maria se mistura à de outras famílias que durante anos cobraram uma solução para o abastecimento da comunidade.
A reivindicação chegou ao deputado federal Keniston Braga, que destinou R$ 559.595,00 em emenda parlamentar para a obra.
O sistema foi implantado e, atualmente, as casas da Vila Apinajés contam com água encanada, tratada e fornecida de forma contínua.
Na terça-feira, 22 de setembro de 2026, durante uma visita à comunidade, Keniston Braga esteve acompanhado da prefeita Marcelane. Moradores se reuniram perto da caixa d’água para agradecer pela obra.
Maria do Espírito Santo diz que a mudança não pode ser medida apenas pela quantidade de água que passou a sair das torneiras.
“Tem gente que pode pensar que é só água, mas não é. Foi uma luta de muitos anos; ele ouviu a gente e cumpriu a palavra.”
Dentro de casa, a diferença aparece sem precisar de discurso.
A torneira é aberta para lavar a louça. A água serve para molhar as plantas. A roupa pode ser lavada sem a preocupação de sair manchada.
E aquelas horas gastas no caminho até o rio agora pertencem à própria família.
“Sobra até tempo pra gente assistir aos doramas”, diz Maria, rindo.
No fim, talvez seja o varal que melhor conte essa história.
Entre as roupas estendidas no quintal, uma peça branca balança com o vento.
Depois de tantos anos, o branco voltou a fazer parte da paisagem de Apinajés.
