Terra arrasada: o que fica quando Parauapebas transforma território em riqueza


Artigo

Terra arrasada: o que fica quando Parauapebas transforma território em riqueza


Gilberlan Atrox, Parauapebas (PA)

Parauapebas nasceu e cresceu sob uma promessa poderosa: transformar as riquezas minerais de Carajás em desenvolvimento. Mais de três décadas depois, a pergunta que precisa ser feita é menos confortável.

O que fica no território quando a riqueza é retirada?

A expressão “terra arrasada” pode parecer exagerada quando aplicada a Parauapebas. A cidade está viva, cresce, recebe investimentos, movimenta comércio, arrecada recursos e continua sendo um dos principais territórios da mineração brasileira.

Mas a expressão ganha outro significado quando se olha para o território pela perspectiva ambiental.

Não se trata apenas de contar árvores derrubadas. Trata-se de observar rios, igarapés, nascentes, matas ciliares, solo, biodiversidade e áreas que deixam de cumprir funções ambientais depois de sucessivas intervenções humanas.

Um estudo publicado na revista Acta Amazonica, por exemplo, identificou impactos ambientais no rio Parauapebas relacionados ao desmatamento das matas ciliares, atividades mineradoras, retirada de sedimentos e expansão urbana não planejada. A pesquisa também apontou sinais de degradação e poluição em igarapés urbanos que deságuam no rio. (SciELO Brasil)

Isso significa que a discussão ambiental de Parauapebas não começou agora.

Ela acompanha a própria transformação do município.

A cidade que cresceu sobre um território transformado

Parauapebas é um município marcado pela mineração e pela expansão urbana acelerada. O crescimento trouxe infraestrutura, empregos, arrecadação e oportunidades, mas também aumentou a pressão sobre o território.

A questão não é simplesmente ser contra ou a favor da mineração.

Uma cidade cuja economia depende fortemente da extração mineral precisa fazer uma pergunta ainda maior: qual será o destino do território quando determinadas áreas deixarem de produzir minério?

É aí que a expressão “terra arrasada” deixa de ser apenas uma figura de linguagem.

Uma área degradada não perde somente árvores. Pode perder capacidade de infiltrar água, proteger nascentes, abrigar fauna, controlar erosão e oferecer condições para a regeneração natural.

Por isso, recuperação ambiental não pode ser confundida com plantar algumas árvores depois que uma área foi modificada.

É preciso recuperar funções ecológicas.

A conta que aparece depois

Em março de 2026, a Prefeitura de Parauapebas informou que ações do Prosap já haviam levado ao plantio de mais de 10 mil mudas no município. O programa também estabeleceu para 2026 a meta de plantar mais de 30 mil mudas e recuperar aproximadamente 13 hectares de mata ciliar em áreas de preservação permanente. (Prefeitura de Parauapebas)

Essas ações mostram que existe uma tentativa institucional de enfrentar parte do problema.

Mas também revelam a dimensão do desafio.

Se é necessário recuperar áreas degradadas, é porque determinadas áreas chegaram a uma condição que exige intervenção para voltar a cumprir funções ambientais.

A questão jornalística, portanto, não deveria terminar na quantidade de mudas plantadas.

É preciso perguntar:

Quantas áreas foram degradadas?

Onde estão essas áreas?

Quanto custa recuperá-las?

Quanto tempo leva para uma área voltar a apresentar características próximas das originais?

Quem paga essa conta?

Quem fiscaliza?

Quais áreas continuam sendo modificadas?

Essas perguntas ajudam a transformar o debate ambiental em uma investigação sobre o território.

Mineração não é o único problema

Seria incorreto atribuir toda degradação ambiental de Parauapebas exclusivamente à mineração.

A expansão urbana também produz impactos.

O estudo sobre o rio Parauapebas apontou justamente uma combinação de fatores: expansão urbana, desmatamento das margens, atividades mineradoras, retirada de sedimentos e problemas relacionados ao lançamento de matéria orgânica e efluentes. (SciELO Brasil)

Esse ponto é importante porque evita uma narrativa simplista.

O problema ambiental de Parauapebas é maior que uma empresa, maior que um governo e maior que uma atividade econômica.

É um problema de ocupação do território.

A cidade cresceu. A mineração cresceu. A população cresceu. A infraestrutura cresceu.

E o território precisou absorver tudo isso.

O território como documento

Existe outra maneira de contar a história de Parauapebas.

Em vez de olhar somente para prédios, avenidas, obras, produção mineral e arrecadação, é possível olhar para o território como um documento histórico.

Uma nascente protegida conta uma história.

Um igarapé canalizado conta outra.

Uma mata preservada conta uma terceira.

Uma área degradada também conta.

Cada alteração registrada no território é uma espécie de arquivo da ocupação humana.

Por isso, fotografar, mapear e documentar essas transformações pode produzir um registro jornalístico que ultrapasse o noticiário diário.

A Parauapebas de hoje pode ser comparada com a Parauapebas de dez, vinte ou trinta anos atrás.

Onde havia mata?

Onde havia igarapé?

Onde surgiram bairros?

Quais áreas foram recuperadas?

Quais continuam degradadas?

Quais desapareceram?

Essas respostas podem formar um dos mais importantes documentos ambientais sobre a história recente de Carajás.

A mineração acaba. O território permanece.

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

A mineração é uma atividade econômica baseada na retirada de recursos naturais. O minério extraído não volta para a montanha.

O território, entretanto, permanece.

É ele que continuará existindo quando determinadas jazidas forem reduzidas, quando determinadas minas encerrarem atividades ou quando a economia local precisar encontrar novas fontes de riqueza.

Por isso, discutir Parauapebas apenas pela quantidade de minério produzido é olhar somente para uma parte da história.

A outra parte está no território.

E território degradado significa menos opções para o futuro.

A verdadeira riqueza pode estar naquilo que não foi destruído

Parauapebas ainda possui uma vantagem que não pode ser contabilizada apenas em toneladas de minério.

Existe água.

Existe floresta.

Existe biodiversidade.

Existe conhecimento tradicional.

Existe agricultura.

Existe espaço para restauração.

Existe uma população que precisa continuar vivendo no município depois dos ciclos econômicos.

A recuperação ambiental, portanto, não deveria ser tratada somente como obrigação decorrente de licenciamento ou compensação.

Ela pode fazer parte da própria estratégia econômica de longo prazo.

O Brasil, inclusive, assumiu em 2026 uma meta nacional relacionada à neutralidade da degradação da terra, com ações de prevenção e recuperação de áreas degradadas. (Folha de S.Paulo)

Para uma região mineradora como Carajás, essa discussão é particularmente importante.

Antes que seja tarde

“Terra arrasada” não precisa ser uma previsão sobre o futuro de Parauapebas.

Pode ser um alerta.

Uma cidade não precisa esperar o esgotamento de uma atividade econômica para começar a perguntar o que fará depois dela.

O momento de documentar as transformações é enquanto elas acontecem.

O momento de recuperar áreas degradadas é antes que a recuperação se torne muito mais cara.

O momento de proteger nascentes é antes que a água desapareça.

E o momento de discutir uma economia que sobreviva à mineração é enquanto a mineração ainda financia boa parte da estrutura econômica local.

Parauapebas não precisa escolher entre desenvolvimento e meio ambiente.

Mas precisa decidir que tipo de desenvolvimento pretende deixar como herança.

Porque o minério sai.

O dinheiro circula.

Os governos mudam.

As empresas mudam.

Mas a terra permanece.

E, no fim, será ela quem contará a verdadeira história de Carajás.

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