No auge da corrida do ouro em Serra Pelada, durante os anos 1980, o pequeno vilarejo de Curionópolis deixou de ser apenas uma cidade pacata e tornou-se o epicentro de um fenômeno marcado por tensões sociais, migração em massa e exploração econômica.
A descoberta de ouro em Serra Pelada, no final de 1979, provocou um êxodo humano sem precedentes. Em poucas semanas, milhares de garimpeiros chegaram à região, e o número ultrapassou 30 000 já em meados de 1980. Entre 1980 e meados da década, a área chegou a abrigar cerca de 80 000 garimpeiros simultaneamente.
Diante desse fluxo intenso, o governo federal interveio com a designação do militar Sebastião Curió, encarregado de organizar e controlar a região. Curió estabeleceu regras básicas para a convivência entre garimpeiros e população local, proibindo, por exemplo, a presença de mulheres e bebidas dentro da cava. Enquanto isso, Curionópolis, apelidada de “Trinta” por sua proximidade com o Km 30 da rodovia de acesso, se consolidava como centro urbano e de serviços.
A cidade também ganhou fama como reduto de prostituição. Estimativas históricas indicam que cerca de 5 000 mulheres atuavam na região, em meio a um ambiente de forte violência. A expressão popular “30 de dia e 38 à noite” fazia referência ao revólver calibre 38 e à frequência de conflitos armados, simbolizando a tensão diária vivida pelos moradores e visitantes.
Curionópolis tornou-se um porto seguro para garimpeiros: bares, pensões, bordéis e casas de show surgiram em profusão. A economia local girava quase totalmente em torno do ouro retirado da cava — serviços, comércio, hospedagem e entretenimento prosperaram nesse contexto extremo.
Muitas mulheres migraram de outras regiões, atraídas pelas promessas de ganhos rápidos. Algumas permaneceram e reconstruíram suas vidas na cidade; outras se depararam com violência, exploração e abandono. O contraste entre riqueza súbita e miséria consolidou o retrato de uma realidade tumultuada e singular na história da mineração brasileira.
