Mesmo movimentando bilhões e impactando diretamente saúde, economia e meio ambiente, o saneamento básico segue fora do centro do debate nas eleições 2026. Reportagem analisa os desafios do setor no Brasil e na Amazônia.
![]() |
| VII IV MMXXII Obra do Prosap. Fotografia: Gilberlan Atrox/Revista Atroxista |
Apesar de movimentar centenas de bilhões de reais e impactar diretamente a saúde pública, a economia e o meio ambiente, o saneamento básico continua distante do centro das campanhas eleitorais no Brasil. Em pleno ciclo das Eleições 2026, especialistas alertam que o tema ainda recebe pouca atenção de candidatos, partidos e debates públicos, mesmo diante do enorme déficit estrutural que afeta milhões de brasileiros.
Dados apresentados pelo Senado Federal mostram que cerca de 43% da população brasileira ainda vive sem coleta de esgoto e aproximadamente 16% não possui acesso regular à água potável. O cenário revela um país onde o básico permanece inacessível para uma parcela significativa da população, especialmente nas periferias urbanas, municípios pequenos e regiões da Amazônia Legal.
O problema vai além da infraestrutura. A ausência de saneamento influencia diretamente no aumento de doenças infecciosas, na mortalidade infantil, na evasão escolar e até na produtividade econômica. Estudos do setor apontam que áreas sem esgoto tratado registram maior incidência de enfermidades como hepatite, leptospirose, diarreia e parasitoses, criando um ciclo permanente de desigualdade social.
Uma agenda bilionária ignorada
O debate sobre saneamento ganhou força nacional em 2020, com a aprovação do novo Marco Legal do Saneamento, legislação que estabeleceu metas ambiciosas de universalização até 2033. Entre os objetivos estão garantir acesso à água potável para 99% da população e ampliar para 90% a coleta e o tratamento de esgoto no país.
Desde então, o setor passou a atrair grandes volumes de investimentos públicos e privados. Segundo dados citados pelo Senado, mais de R$ 370 bilhões em projetos foram contratados após a aprovação do marco regulatório. O montante envolve concessões, parcerias público-privadas, obras de drenagem, expansão de redes de abastecimento e modernização de sistemas urbanos.
Mesmo com cifras bilionárias, o assunto raramente aparece entre as principais promessas eleitorais. Para analistas políticos e especialistas em gestão pública, há uma razão estratégica por trás disso: obras de saneamento possuem alto custo, longa execução e pouca visibilidade imediata.
Ao contrário de viadutos, praças ou asfaltamento urbano, redes subterrâneas de esgoto não geram forte apelo visual para campanhas políticas. Muitas vezes, os resultados aparecem apenas anos depois da conclusão dos investimentos, ultrapassando mandatos e reduzindo o retorno eleitoral para gestores públicos.
Amazônia enfrenta os maiores desafios
Na região amazônica, o problema assume proporções ainda mais graves. Municípios do Pará, Amazonas, Amapá e Acre convivem com baixos índices de cobertura de água tratada e coleta de esgoto, enquanto rios urbanos seguem recebendo despejo irregular de resíduos.
Em cidades que cresceram rapidamente por causa da mineração, expansão urbana desordenada ou ocupações periféricas, a infraestrutura não acompanhou o aumento populacional. Em muitos locais, a população depende de poços artesianos improvisados, fossas rudimentares e redes precárias de drenagem.
O desafio amazônico também envolve fatores geográficos e climáticos. Áreas de várzea, períodos intensos de chuva e ocupações afastadas tornam as obras mais caras e complexas. Ainda assim, especialistas defendem que a ausência de saneamento na Amazônia aprofunda desigualdades históricas e amplia riscos ambientais.
Além da saúde pública, o despejo de esgoto sem tratamento afeta diretamente rios, igarapés e lençóis freáticos, comprometendo ecossistemas essenciais para milhares de comunidades tradicionais e populações ribeirinhas.
O impacto econômico invisível
O saneamento básico também é tratado por economistas como uma das áreas de maior retorno social por investimento público. Regiões com acesso pleno à água tratada e coleta de esgoto tendem a registrar valorização imobiliária, crescimento do turismo, redução de gastos hospitalares e melhoria da qualidade de vida.
Segundo especialistas ouvidos pelo Senado, o saneamento influencia até o desempenho escolar e a renda média da população. Crianças expostas a ambientes sem infraestrutura sanitária possuem maior risco de doenças recorrentes, faltas escolares e dificuldades de aprendizagem.
Mesmo assim, a pauta continua distante do imaginário político nacional. Em muitos municípios, o tema aparece apenas de forma genérica em planos de governo, sem metas concretas, cronogramas ou definição clara de financiamento.
A cobrança que ainda não chegou às urnas
Representantes do setor defendem que a sociedade passe a cobrar propostas mais objetivas dos candidatos. A avaliação é que o saneamento só ganhará espaço efetivo quando eleitores transformarem o tema em prioridade eleitoral.
A presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Siewert Pretto, destacou que o saneamento precisa ocupar papel central nas agendas dos futuros governantes e ser compreendido como uma política pública transversal, ligada à saúde, educação, turismo e desenvolvimento econômico.
Já parlamentares ligados ao tema defendem que prefeitos, governadores, deputados e senadores apresentem projetos concretos para ampliar a cobertura de água e esgoto em suas regiões.
Enquanto isso, o país segue convivendo com um paradoxo: uma das áreas mais essenciais para a dignidade humana continua sendo uma das menos exploradas no debate político-eleitoral brasileiro.
Revista Atroxista
