Dívida dos EUA ultrapassa US$ 40 trilhões durante o segundo mandato de Donald Trump. Entenda os fatores que explicam o endividamento e a declaração de Lula sobre o tema.
Marca histórica foi alcançada em agosto, enquanto o governo Donald Trump enfrenta o desafio de conter o déficit e os custos crescentes dos juros da dívida federal
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões em agosto de 2026. De acordo com dados do Departamento do Tesouro americano citados pela Reuters, o estoque total chegou a US$ 40,047 trilhões em 18 de agosto. O valor inclui aproximadamente US$ 32,266 trilhões em títulos do Tesouro em poder do público e US$ 7,782 trilhões em dívida intragovernamental.
A marca foi alcançada durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, que iniciou o novo governo em janeiro de 2025 defendendo redução de gastos e maior disciplina fiscal. Segundo a Reuters, a dívida ultrapassou US$ 40 trilhões nos primeiros 19 meses do segundo mandato. Isso, porém, não significa que Trump tenha criado sozinho uma dívida de US$ 40 trilhões. O endividamento americano é resultado de décadas de déficits, gastos públicos, cortes de impostos, programas sociais, despesas militares e custos financeiros acumulados por diferentes administrações.
Juros aumentam pressão sobre as contas públicas
Um dos principais problemas é o custo para financiar a própria dívida. Segundo dados citados pela Reuters, os Estados Unidos desembolsam atualmente cerca de US$ 1,1 trilhão por ano em juros sobre os empréstimos do governo. O aumento dos juros dos títulos do Tesouro torna o serviço da dívida ainda mais caro.
No ano fiscal de 2025, o custo dos juros da dívida chegou a superar os gastos do Pentágono. Nos primeiros dez meses do ano fiscal de 2026, os pagamentos de juros também ultrapassaram os gastos com o Medicare, tornando-se a segunda maior despesa individual do orçamento federal, atrás apenas da Previdência Social.
A situação também está relacionada ao crescimento das despesas obrigatórias. Cerca de 60% dos gastos federais americanos são destinados a programas considerados obrigatórios, como Social Security, Medicare, Medicaid e benefícios para veteranos. Esses gastos tendem a crescer à medida que a população envelhece.
Trump prometeu reduzir gastos
A chegada de Trump ao segundo mandato foi acompanhada de uma promessa de redução do tamanho do governo e dos gastos federais. Entre as medidas adotadas esteve a redução de postos de trabalho e de programas considerados discricionários.
O problema é que, segundo a Reuters, boa parte desses cortes atingiu justamente uma parcela menor do orçamento federal. Enquanto isso, despesas obrigatórias, juros da dívida e outras obrigações continuam pressionando as contas públicas.
Além disso, cortes de impostos e novas despesas aprovadas durante o governo também aumentam a necessidade de financiamento do governo federal, dificultando uma redução rápida do endividamento.
A dívida americana e a declaração de Lula
A marca dos US$ 40 trilhões ganhou repercussão também no Brasil depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou o endividamento americano durante entrevista ao Jornal Nacional, em agosto de 2026.
Questionado sobre a dívida brasileira, Lula citou os Estados Unidos como exemplo e afirmou que a dívida americana estava em aproximadamente US$ 40 trilhões, equivalente a cerca de 120% do PIB.
A afirmação foi posteriormente analisada pelo Estadão Verifica. A checagem classificou como verdadeira a declaração sobre o tamanho da dívida americana e sua relação aproximada com o Produto Interno Bruto. A dívida havia ultrapassado os US$ 40 trilhões em 19 de agosto de 2026.
A comparação, entretanto, precisa ser feita com cuidado. O tamanho nominal da dívida e sua relação com o PIB são indicadores diferentes: enquanto os US$ 40 trilhões representam o estoque total da dívida federal, os cerca de 120% representam sua dimensão em relação ao tamanho anual da economia americana.
Um problema que atravessa governos
Apesar de o recorde ter sido alcançado durante o segundo mandato de Trump, o crescimento da dívida dos Estados Unidos não começou no atual governo.
Segundo dados citados pela Reuters, a dívida federal americana mais que dobrou em menos de uma década. Em janeiro de 2017, quando Trump assumiu seu primeiro mandato, o estoque estava em aproximadamente US$ 19,95 trilhões. Desde então, o endividamento continuou crescendo durante os governos Trump, Joe Biden e novamente Trump.
O desafio, portanto, não é exclusivo de um presidente ou partido. Republicanos e democratas participaram, em diferentes períodos, de políticas que contribuíram para o aumento do endividamento, incluindo cortes de impostos, aumento de despesas, guerras, programas de estímulo econômico e expansão dos gastos sociais.
O que está em jogo
A preocupação dos economistas não está apenas no tamanho absoluto da dívida, mas na capacidade do governo americano de manter o endividamento sob controle enquanto os juros continuam elevados.
O Federal Reserve e analistas do mercado acompanham de perto a relação entre crescimento econômico, déficit público, inflação e custo dos títulos do Tesouro. O aumento dos rendimentos dos títulos significa que o governo precisa pagar mais para captar recursos, o que pode elevar ainda mais as despesas financeiras.
Apesar das preocupações, a situação não significa que os Estados Unidos estejam diante de uma quebra iminente. O país continua tendo acesso amplo aos mercados financeiros e emite a principal moeda de reserva internacional. A questão central é fiscal: quanto tempo o governo americano poderá continuar aumentando a dívida sem que os juros e os déficits passem a pressionar de forma mais intensa a economia e as contas públicas.
A marca de US$ 40 trilhões, portanto, representa mais do que um número histórico. Ela evidencia um problema fiscal acumulado ao longo de diferentes governos e coloca novamente no centro do debate americano a necessidade de equilibrar gastos, receitas, crescimento econômico e custo da dívida.
